{"id":25248,"date":"2025-11-11T15:36:01","date_gmt":"2025-11-11T18:36:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.thepresident.com.br\/?p=25248"},"modified":"2026-01-11T20:10:00","modified_gmt":"2026-01-11T23:10:00","slug":"alma-paraense-belem-para","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapa360.com.br\/thepresident\/alma-paraense-belem-para\/","title":{"rendered":"Alma paraense"},"content":{"rendered":"<p>A chegada a Bel\u00e9m desperta mem\u00f3rias e sabores, com muito calor<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Por<\/strong> Izabella Cristo<\/p>\n<p><strong>A TURBUL\u00caNCIA LEVE TE DESPERTA.<\/strong> Quase tr\u00eas horas de voo, voc\u00ea acorda do cochilo, a turbina ronca potente no seu ouvido direito. Desencosta a cabe\u00e7a da janela, avista l\u00e1 embaixo o manto verde. Atesta: ainda existe Amaz\u00f4nia. N\u00e3o deixa de reparar certas \u00e1reas feridas, quadril\u00e1teros barrocos no manto. Lamenta.<\/p>\n<p>O piloto anuncia a descida. Bem-vindos a Bel\u00e9m do Par\u00e1, cidade das mangueiras. Pega a mochila com calma, diferentemente das pessoas ao redor, ansiosas pelos bagageiros lotados de sacolas, malas e pacotes de presentes. Paraenses s\u00e3o assim, sempre carregados de surpresas. Voc\u00ea j\u00e1 fez essa travessia diversas vezes, n\u00e3o tem mais tanta pressa. Desce do avi\u00e3o, pega a mala na esteira lotada. Na sala de desembarque estranha tantos toldos e divis\u00f5es. Na sa\u00edda do hall do aeroporto, o bafo quente equatorial te recebe na face. Voc\u00ea volta a sentir o cl\u00e1ssico calor \u00famido geogr\u00e1fico. Em breve, voc\u00ea ser\u00e1 acometida pelo suor, a famosa brea, vai ficar com a cara de pupunha. Voc\u00ea ri ao se lembrar do extenso vocabul\u00e1rio e palavreado paraenses. A gram\u00e1tica papa-chib\u00e9 \u00e9 avan\u00e7ada. N\u00e3o d\u00e1 tempo de brecar nada, voc\u00ea entra no t\u00e1xi.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9gua, mano, t\u00e1 calor demais&#8221;, o taxista comenta. Acomodada no banco do t\u00e1xi, observa, nas ruas, mais toldos e constru\u00e7\u00f5es. A cidade est\u00e1 em reforma. O cora\u00e7\u00e3o de Bel\u00e9m se prepara para receber mais gente. Desta vez, n\u00e3o s\u00f3 os usuais 2 milh\u00f5es de peregrinos do C\u00edrio de Na-zar\u00e9. Cora\u00e7\u00e3o de cidade-m\u00e3e \u00e9 assim, sempre cabe mais um. Carros, a usual avalanche de motos e bicicletas acompanham o trajeto. Voc\u00ea ia pra casa. A m\u00e3e te espera com algum almo\u00e7o. Afinal, todo paraense que se preze recebe sempre o outro com um bom prato. Arroz paraense com jambu. Suco de cupua\u00e7u, o seu preferido. A\u00e7a\u00ed de sobremesa. Com farinha de tapioca e a\u00e7\u00facar. &#8220;Me leva l\u00e1 pra pra\u00e7a da Casa das Onze Janelas.&#8221; &#8220;Pra j\u00e1!&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Mas vai pela Almirante Barroso.&#8221; Voc\u00ea quer ir pela avenida principal da capital. Quer ver a torre da RBA, um dos pontos mais altos da cidade. Quer passar em frente ao Bosque Rodrigues Alves, onde voc\u00ea conheceu o boto-cor-de-rosa na inf\u00e2ncia e passeava por l\u00e1 at\u00e9 a adolesc\u00eancia, pois ficava bem perto da faculdade. Chegam \u00e0s ruas do centro da cidade. O corredor de mangueiras plantado na Belle \u00c9poque orna as cal\u00e7adas, d\u00e1 frescor ao calor e te encanta novamente. Voc\u00ea agradece aos antepassados que plantaram aquelas sementes de sombra e manga fresca. A cidade em que a comida pode cair dos c\u00e9us. &#8220;Tem muito traumatismo craniano em Bel\u00e9m?&#8221;, um professor do Sudeste, uma vez te perguntou num congresso. &#8220;Tem, mas n\u00e3o de manga. \u00c9 queda de moto mesmo&#8221;, voc\u00ea respondeu. Chega \u00e0 pra\u00e7a da Casa das Onze Janelas, conta de novo, confere, s\u00e3o onze.\u00a0<\/p>\n<p>Entra no pr\u00e9dio, atravessa o corredor at\u00e9 o museu, percorre a orla, avista o Forte do Castelo e a orla do bairro da Cidade Velha, onde a cidade supostamente nasceu. Sente saudade de uma hist\u00f3ria a qual voc\u00ea n\u00e3o viveu, s\u00f3 soube. A Ba\u00eda do Guajar\u00e1 brilha com o sol amea\u00e7ando se esconder. Voc\u00ea retorna \u00e0 pra\u00e7a Caetano Brand\u00e3o, olha a Igreja da S\u00e9, uma das moradias de Nossa Senhora de Nazar\u00e9 no C\u00edrio.<\/p>\n<p>Relembra como o mesmo espa\u00e7o fica intransit\u00e1vel, todos os anos, empilhado de romeiros e peregrinos, completamente diferente daquela \u00e9poca, com poucas barracas de comida e apenas uma de brinquedos de miriti. Mais pr\u00f3xima, voc\u00ea observa os brinquedos coloridos de madeira leve e nobre, t\u00eam gosto de inf\u00e2ncia e fam\u00edlia. Voc\u00ea sorri. A barriga ronca, voc\u00ea est\u00e1 brocada. Est\u00e1 com desejo, saudade de comer uma boa posta de peixe filhote. &#8220;Bem melhor do que tainha&#8221;, se lembra da eterna briga com o marido sulista. Ele nunca negou.<\/p>\n<p>A culin\u00e1ria paraense \u00e9 um patrim\u00f4nio cultural. Desde os peixes, filhote, pirarucu (nosso bacalhau), tambaqui, tucunar\u00e9, mapar\u00e1, assados, cozidos, fritos, bem temperados com jambu, tucupi ou simplesmente sem nada, ficam bons de qualquer jeito. Nem me fale, mana, dos sucos e frutas, cupua\u00e7u, bacuri, tapereb\u00e1, manga. No restaurante, pede o peixe com arroz paraense. O jambu do risoto faz tremer a l\u00edngua anestesiada, como sempre. Termina o suco de cupua\u00e7u de um gole, pede a conta e pega outro carro em dire\u00e7\u00e3o ao Mangal das Gar\u00e7as, quer ver o p\u00f4r do sol de l\u00e1. Mas antes passa numa sorveteria. &#8220;A\u00e7a\u00ed com tapioca, por favor.&#8221; &#8220;Paraense?&#8221; Sim, sorvete paraense. Se tivesse cara de turista, o mo\u00e7o te deixaria beliscar de prova todos os sabores do balc\u00e3o. Paraense \u00e9 generoso, adora agradar os turistas. &#8220;S\u00f3 n\u00e3o vai misturar a\u00e7a\u00ed com manga!&#8221;, alerta a lenda. No Mangal, percorre o trapiche com sua pequena mala. O sol de penumbra alaranjada se p\u00f5e na ba\u00eda. Voc\u00ea recarrega parte da energia na alma.<\/p>\n<p>A culin\u00e1ria paraense \u00e9 um patrim\u00f4nio cultural. Desde os peixes, filhote, pirarucu (nosso bacalhau), tambaqui, tucunar\u00e9, mapar\u00e1, assados, cozidos, fritos, bem temperados com jambu, tucupi ou simplesmente sem nada, ficam bons de qualquer jeito. Nem me fale, mana, dos sucos e frutas, cupua\u00e7u, bacuri, tapereb\u00e1, manga. No restaurante, pede o peixe com arroz paraense. O jambu do risoto faz tremer a l\u00edngua anestesiada, como sempre. Termina o suco de cupua\u00e7u de um gole, pede a conta e pega outro carro em dire\u00e7\u00e3o ao Mangal das Gar\u00e7as, quer ver o p\u00f4r do sol de l\u00e1. Mas antes passa numa sorveteria. &#8220;A\u00e7a\u00ed com tapioca, por favor.&#8221; &#8220;Paraense?&#8221; Sim, sorvete paraense. Se tivesse cara de turista, o mo\u00e7o te deixaria beliscar de prova todos os sabores do balc\u00e3o. Paraense \u00e9 generoso, adora agradar os turistas. &#8220;S\u00f3 n\u00e3o vai misturar a\u00e7a\u00ed com manga!&#8221;, alerta a lenda. No Mangal, percorre o trapiche com sua pequena mala. O sol de penumbra alaranjada se p\u00f5e na ba\u00eda. Voc\u00ea recarrega parte da energia na alma.<\/p>\n<p>No Mangal, percorre o trapiche com sua pequena mala. O sol de penumbra alaranjada se p\u00f5e na ba\u00eda. Voc\u00ea recarrega parte da energia na alma. Compra o ticket e sobe na torre do Mangal, bem na hora em que v\u00e3o alimentar as gar\u00e7as, o espet\u00e1culo de p\u00e1ssaros em nuvens atr\u00e1s dos peixes lan\u00e7ados \u00e9 encantador. Avista o parque de cima, a cidade das mangueiras \u00e9 entremeada de por\u00e7\u00f5es verdes. Consegue localizar os bols\u00f5es do Parque do Utinga, uma \u00e1rea verde bem maior.<\/p>\n<p>Na orla mais distante, a Esta\u00e7\u00e3o das Docas, a antiga \u00e1rea fluvial do porto, onde os guinchos amarelos aposentados ainda ornam. N\u00e3o vai dar tempo de visitar hoje, fica pra outro dia. N\u00e3o se pode ter tudo. Sai com a alma renovada. Chega \u00e0 casa da m\u00e3e, no outro munic\u00edpio, reenergizada.<\/p>\n<p>&#8220;Como foi o passeio, minha filha? \u201cFoi \u00f3timo.\u201d &#8220;T\u00e1 com fome?&#8221; &#8220;N\u00e3o, s\u00f3 sede.&#8221;<\/p>\n<p>Sua m\u00e3e te prepara um suco. Na prateleira do quarto, pacotes de bombons de cupua\u00e7u e castanha-do-par\u00e1 encomendados, junto \u00e0 cacha\u00e7a de jambu, itens que, para voc\u00ea, n\u00e3o t\u00eam pre\u00e7o.<\/p>\n<p>Voc\u00ea deita na rede no quarto, se balan\u00e7ando e fazendo roncar o armador, mirando a estante, pensando em como vai caber tudo aquilo na sua maleta.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9gua, preciso comprar um isopor&#8221;, a m\u00e3e alerta, te entregando o copo de suco de cupua\u00e7u fresquinho.<\/p>\n<p>A volta \u00e9 sempre carregada de quilos e produtos paraenses, inevit\u00e1vel. Todo paraense que se preze faz importa\u00e7\u00e3o de comida. Est\u00e1 certa de que, na volta, sua mala estar\u00e1 cercada de isopores e caixas na mesma esteira. A mala vem pesada. Mas a alma, essa sim, estar\u00e1 mais leve.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A chegada a Bel\u00e9m desperta mem\u00f3rias e sabores, com muito calor<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":25250,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5,3],"tags":[3002,3003,1527,2060],"class_list":["post-25248","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","category-gourmet","tag-alma-paraense","tag-belem-do-para","tag-cop30","tag-para"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mapa360.com.br\/thepresident\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25248","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mapa360.com.br\/thepresident\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mapa360.com.br\/thepresident\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapa360.com.br\/thepresident\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapa360.com.br\/thepresident\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25248"}],"version-history":[{"count":13,"href":"https:\/\/mapa360.com.br\/thepresident\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25248\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":28547,"href":"https:\/\/mapa360.com.br\/thepresident\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25248\/revisions\/28547"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapa360.com.br\/thepresident\/wp-json\/wp\/v2\/media\/25250"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mapa360.com.br\/thepresident\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25248"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapa360.com.br\/thepresident\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25248"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapa360.com.br\/thepresident\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25248"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}