Navegar é preciso, mesmo em uma tempestade perfeita



Por Juliana Andrade

Daqui de onde estamos, no olho do furacão da pandemia, não faltam dúvidas e perplexidade diante do que vemos nas redes sociais e na comunicação de forma geral.

Em meio a tantos acontecimentos, tem sido curioso observar que o debate sobre como as empresas e marcas estão se posicionando na crise virou assunto nos mais diferentes círculos.

A discussão, antes restrita à bolha dos profissionais da área, rompeu fronteiras e chegou, inclusive, aos controversos grupos de whatsapp de famílias, vizinhos, amigos e tantos outros. Indignação com o banco que faz campanha bonita, mas não libera financiamento, recomendações para que todos comprem os presentes de Dia das Mães na loja X de departamento porque a “dona” é uma pessoa realmente boa, e convocações revoltadas para sabotagem coletiva daquele “melhor hamburguer do mundo” porque o chef, que lidera o negócio, não se importa com a morte de milhares de pessoas.

Virou meio Fla- Flu? Talvez. Mas há aí um componente muito importante e que não podemos mais ignorar: as pessoas estão mudando. A nossa fragilidade, em todos os níveis, foi escancarada na pandemia e isso vem causando efeitos profundos na forma como vemos e sentimos o mundo, o outro e nós mesmos. Acredite você ou não no lockdown, na cloroquina ou na urgência de abertura da economia, estamos juntos numa complexa, e ainda obscura, jornada de transformação sem saber muito bem o que seremos lá do outro lado. Longe de querer debater ideologias diversas ou o “novo normal”, me atenho aqui à proposta deste artigo: o que está acontecendo com a reputação das marcas?

Há muito se fala em propósito como ponto de partida da construção de imagem de uma empresa. Em 2009, Simon Sinek apresentava ao mundo a brilhante teoria do Círculo de Ouro, no livro “Start Whith Why”. Estamos há anos entoando esse mantra, mas é agora, sufocados no caos do novo coronavírus, que isso se torna uma verdade absoluta. Antigos valores são definitivamente ofuscados por uma nova lógica de consumo porque nós não somos mais os mesmos.

Nas últimas semanas, vimos companhias revendo às pressas seus posicionamentos, mudando campanhas, e até mesmo tirando peças do ar. Responsabilidade social virou identidade de marca e um estrondoso divisor de águas. Há os que já estavam preparados para navegar em mar bravo e se fortaleceram na tempestade e há também os que ainda estão naufragando no oportunismo ou na omissão.

São tempos de incertezas, mas todas as bússolas parecem apontar numa mesma direção: não há mais espaço para concorrência desmedida e posturas individualistas.

O mundo se tornou coletivo, o tempo é de mobilização e não mais de venda e compra, simplesmente.

Neste cenário, todas as lógicas se invertem, ou se confundem. Ou ambas as coisas. A publicidade é desafiada, a imprensa se reinventa, os influenciadores digitais são postos à prova e as relações públicas, mais do que nunca, se fortalecem. Tudo isso está junto e a serviço dos únicos valores capazes de sustentar a reputação de uma marca nesse furioso mar em que navegamos: Por que você faz? E qual a sua verdade?

Não importa o tamanho da empresa nem o volume de recursos a ser direcionado. É urgente definir um propósito, encontrar uma causa e colocar a responsabilidade social no centro das decisões estratégicas. Seja na saúde, educação, desenvolvimento econômico sustentável, direitos humanos, valorização da ciência, ou outro segmento, construa a sua verdade, ou realinhe seus conceitos para sobreviver.

Inspiração, consciência, consistência. Três elementos mágicos que estão transformando a realidade e revolucionando o futuro dos negócios. Qualquer coisa fora disso provavelmente desaparecerá.

Vivemos uma tempestade perfeita. Mas como disse o maior de todos os poetas portugueses: navegar é preciso! No mesmo poema, Pessoa fala sobre a vida: “só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso tenha de a perder como minha”. Caberá a cada marujo decidir em qual dos barcos quer seguir viagem.