Comunicação em tempos de cólera



Por Rodrigo Boro

O contexto que estamos vivendo vem desafiando nossa capacidade de ter resiliência em diversos campos de nossas vidas – financeira, emocional e até mesmo física. Em momentos, certamente, todos já entraram numa espiral de profundo questionamento interno sobre os rumos para qual estamos seguindo – e se os caminhos que temos trilhado nesses tempos são corretos.

Esse autoquestionamento, imagino, é algo normal – não temos referência para nada que estamos passando agora, e respostas simples parecem não caber dentro desse contexto tão complexo. No quinhão que atuo, tenho visto que muitas empresas estão preterindo a comunicação em razão de outros investimentos – ou mesmo para salvaguardar outras áreas de atuação que parecem mais relevantes para essas pessoas.

Nesse espírito de reflexão, queria trazer um fato histórico para mostrar a importância da comunicação em tempos de crise. No começo da Segunda Guerra Mundial, o Reino Unido estava desmoralizado e havia uma pressão interna para que fizessem um acordo de rendição para Alemanha. Churchill, o então Primeiro Ministro num governo de coalisão, contrapôs a militarização alemã da propaganda com uma comunicação que enaltecia o espírito de luta e coragem britânico. O governante trouxe ferramentas novas da época para transmitir essa mensagem – utilizando meios de comunicação em massa como rádio e fotografia para passar a ideia de que a civilização estava lutando contra a barbárie.

Certamente, nosso inimigo hoje é muito diferente – um vírus que fez com que fiquemos afastados de nossos amigos e famílias, vem provocando grandes danos na economia e, muitas vezes, ordem social. Como, então, combater esse adversário invisível? A retomada de sonhos!

Se me permitem, vou fazer uma digressão para explicar esse ponto. Em minha vida, tive a oportunidade de conviver com diferentes culturas. Morei seis anos na Inglaterra, casei com uma polonesa e já trabalhei com americanos, italianos, egípcios e franceses. Essa experiência permitiu que eu obtivesse diferentes perspectivas e olhares sobre o mundo. Uma das grandes satisfações em trabalhar na MAPA360 é a convivência com clientes e interfaces latino-americanos, o que me fez perceber o quanto somos mais líricos do que outros povos, uma vantagem na hora de comunicar nesse nosso contexto.

Um exemplo disso veio de uma simples live promovida pelo Portal Turismo e Eventos com Leopoldo Tiberi, diretor de imprensa da EMPROTUR-Bariloche. Foi quase uma hora de conversa, muito focada no trade, abordando assuntos de retomada, agências e rede hoteleira. O lirismo que eu falo veio mais para o fim, na despedida, quando o Leo falou sobre um assunto importante e que muitas vezes deixamos de lado.

O coronavírus chegou no começo do ano e interrompeu diversos planos pessoais e profissionais – ou, no espírito romântico latino-americano, provocou uma ruptura de sonhos. O que o Leo argumentou é que a pandemia também trouxe um presente – o tempo. O tempo extra que muitas pessoas estão tendo dentro de casa, ou a percepção do tempo em face ao desafio de uma pandemia. E ele pede para que usemos esse tempo ao máximo, que aproveitemos para aprender novas coisas e repensar nossos planos.

Por isso, precisamos promover a retomada de sonhos. O que estamos vivendo vai passar, as pessoas vão se encontrar novamente, e é necessário, agora, comunicar esse futuro. Estamos começando a enxergar a nova realidade, e esse não é o momento de desligar a comunicação – mas sim alavancar a imaginação do público sobre o amanhã.

Rodrigo Boro fez jornalismo e possui MA em Artists’ Film, Video and Photography pela University for the Creative Arts. Na MAPA360 é diretor de comunicação e digital, responsável por contas como Avianca Holdings, RCD Hotels, Wyndham Hotels & Resorts, entre outros.