A autogestão e o home office



Por Loise Clemente

Caro colaborador, imagine que hoje você não precisará bater o ponto. Ninguém vai te passar uma lista de tarefas, você precisará checá-la sozinho. Seus colegas não estarão na bancada ao lado para ver se você acessa algum site de entretenimento durante o expediente ou dá aquela olhada nas mensagens do grupo de amigos no WhatsApp. Seu coordenador ou chefe direto não estarão na sala ao lado. Claro, nada disso significa que não haverá reuniões, e-mails, problemas para resolver e conquistas. Todos não estarão na mesma bancada, mas deverão cumprir suas atividades como se estivessem. Na verdade, não será igual. Você terá que controlar seu horário mesmo estando a alguns passos do sofá e do controle da TV. É isso mesmo, bem-vindo ao home office.

Em alguns países europeus ou até mesmo nos Estados Unidos (EUA), o trabalho remoto é comum há décadas. No Brasil, sua efetividade ainda era debatida até o início da pandemia, quando milhares de pessoas precisaram trabalhar em casa e, assim, estão há cinco meses. “Home é home e office é office”, foi o que ouvi de um ex-empregador uma vez. Mas isso faz tempo, foi antes da pandemia. Um estudo recente do Massachusetts Institute of Technology (MIT) mostrou que o Brasil é o 5º país do mundo com mais dificuldade em implementar o home office, enquanto Luxemburgo e Suécia, por exemplo, ocupam os primeiros lugares na pesquisa.

Para além da dificuldade com a internet e filhos em casa, a realidade forçada do trabalho à distância mostrou novos conflitos entre times e líderes, mas também pode – peço permissão para dizer que deva – ser encarada como um momento de colocar a autogestão em prática. Muitos de nós não estamos acostumados a tomar decisões – das mais simples às mais complexas – sem receber ordens diretas. Há, ainda, empresas que não permitem tal autonomia às equipes. Muitos especialistas afirmam que é uma atitude cultural, principalmente no Brasil. O fato é que o atual momento não considera mais o modelo de subordinação total como ideal. Aos mais conservadores, sinto dizer, mas ele falhou.

Fora dos grandes escritórios da Avenida Paulista e até dos menores no interior dos estados, os profissionais precisaram administrar seu tempo no trabalho e com a família, disciplinar ambas as relações. Não foi nada planejado, claro, mas o trabalho remoto exigiu uma produtividade 4.0. Mostrando para os mais céticos que a autogestão precisa ser estimulada diariamente para que, aos poucos, faça parte da rotina. É nela que o colaborador demonstra seu potencial, maturidade e cresce profissionalmente. Tal postura contribui para a melhoria do comprometimento com resultados, por exemplo. Todos saem ganhando, inclusive as empresas.

Mesmo que lentamente e cumprindo restrições, colaboradores de todo o país voltam a ocupar suas bancadas. Já vemos um movimento de empresas trabalhando de forma híbrida ou até abrindo vagas exclusivas para home office. São diversas mudanças, nada é muito certo em uma pandemia, mas sem dúvida o trabalho remoto nos ofereceu autonomia e autodisciplina para aplicarmos no novo normal.


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